Sábado, 05.05.12

Energiewende

 

Fritz Vahrenhold  é um cientista e político alemão (SPD), e desde 2008 CEO da empresa de energias renováveis do grupo empresarial alemão RWE, foi também um herói do movimento ambientalista em 1978 quando publicou um livro muito crítico da indústria química. Mas após a publicação do seu último livro “Die Kalte Sonne” (O Sol esquecido) em que desalinha do consenso na questão das alterações climáticas, mesmo sendo presidente de uma grande empresa de energias renováveis, foi de imediato acusado pelos movimentos ambientalistas alemães de ser um “lobista” a favor da indústria das energias fosseis (a RWE é também o maior electroprodutor alemão na tecnologia de centrais eléctricas a carvão).

 

Esta semana Fritz Vahrenhold deu uma entrevista à Energy Policy Review, a qual pode ser lida aqui. O mais interessante da entrevista é a crítica que Vahrenhold faz ao plano energético de transição alemão (Energiewende). É um plano irracional que, nas suas palavras, ameaça destruir a indústria que está na base da prosperidade económica alemã. E pior, ao contrário do que possa ser percepcionado pela opinião pública, o plano alemão não congrega uma visão europeia sobre a energia e o ambiente, reflecte apenas uma perspectiva egocêntrica, isto é, não tem um contexto europeu (conclusão minha). A Alemanha avançou para a implementação de um plano desta dimensão sem primeiro se concertar com os seus vizinhos, o que é, no mínimo, um acto de enorme arrogância e uma asneira grosseira. 

 

So how can Germany get out of this dead end?

 

-The exit is Europe. The Energiewende should be a European task. It makes no sense to do it with solar power in Flensburg Solar when you can do it in Andalusia for one third of the cost. Wind energy in the Po delta in Italy makes no sense either. But before we can do it on a European scale we need a pan-European grid. Building such a grid will take us at least twenty years. “

 

 

Infelizmente, para os federalistas europeus mais optimistas, a Alemanha dá hoje todos os sinais (na área da energia…) de não saber o que é uma comunidade. Independentemente da qualidade do plano energético alemão, a sua reflexão e acção nesta área enquanto país, são ainda caracterizadas pelo mesmo grau de independência e autonomia que observávamos na grande nação alemã do final do século XIX, e nunca as que deviam qualificar um Estado de uma futura federação europeia do século XXI. 

Victor Tavares Morais às 08:56 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Sexta-feira, 04.05.12

..., Zero

 

Amanhã, dia 5 de Maio vai ser desligada a única central nuclear japonesa em funcionamento e pela primeira vez em décadas o Japão não terá um único reactor nuclear (dos 54 existentes) em funcionamento para produção de energia eléctrica. Mas a transição energética, sem nuclear, pode vir a revelar-se muito difícil.

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Victor Tavares Morais às 19:12 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Sábado, 28.04.12

O abraço do urso

 

Para quem tem estado atento às questões europeias a leste, tem sido óbvio o clima de conflito permanente que a Polónia alimenta com a União Europeia a respeito das questões energéticas e ambientais. Questões essas que vão do número de licenças de emissão de CO2 ao desmantelamento do parque electroprodutor a carvão, até à legislação relativa à exploração de hidrocarbonetos. Em suma, a Polónia sente hoje pouca compreensão por parte de União Europeia no seu esforço para não cair numa maior dependência energética da Rússia. Outros países de leste também enfrentam este enorme desafio, o de se libertarem do estado de dependência do gás Russo, nomeadamente a Ucrânia e a Hungria. A Bielorrússia parece já dominada e confortável com a situação de dependência relativamente a Moscovo.

 

O propósito destes países é não só político mas também económico. O gás russo é tradicionalmente vendido em contratos de longo-prazo, a um preço em que a indexação ao petróleo pesa mais de 85%. A Ucrânia paga hoje preços de gás natural superiores a 400 $/m3 (valor que é superior em dobro ao que pagam os seus vizinhos da Bielorrússia) e a sua vasta rede de gasodutos é “sucata” se por ela não transitar gás em direcção à Europa. A relação energética da Rússia com a Ucrânia relativamente ao preço do gás tem oscilado entre a negociação e a ameaça dos tribunais arbitrais, no entanto os ganhos para os ucranianos são duvidosos. Em Abril de 2010 o presidente Yanukovych da Ucrânia e Dmitri Medvedev assinaram o Acordo de Kharkiv (pura ironia, a cidade onde Yulia Tymoshenko está presa) que garante aos russos a permanência por mais 25 anos da frota do Mar Negro na região da Crimeia, em troca de um desconto no preço do gás, mas os termos deste acordo permanecem no maior dos secretismos.

 

Uma alternativa recente oferecida a estes países para os aliviar do espartilho russo é a auto-produção, nomeadamente de gás não convencional: o shale gás (gás de xisto) e também o CBM (coal bed methane). A Polónia leva a dianteira com duas dezenas de furos de prospecção realizados e ambiciona começar a sua exploração do gás de xisto dentro de 3 a 4 anos, já a Ucrânia anunciará em Maio as empresas vencedoras para a exploração do mesmo gás nas duas zonas geológicas de maior potencial, mas a exploração comercial só será possível dentro de 5 a 7 anos.

 

Sem a ajuda europeia, estes países contam com os Estados Unidos que deslocaram para a região um contingente de empresas, com competências e tecnologia na área do gás não convencional, para permitirem a revolução desejada. Os EUA não querem arriscar perder a zona tampão que separa a Rússia da Europa Ocidental, na qual a Polónia é absolutamente determinante em termos geoestratégicos.

 

A Rússia e a Alemanha (a UE é aqui um “sleeping partner” instrumental), pelo vector da energia, estão a realizar uma estratégia voluntária de tenaz que ambiciona a asfixia económica dos países da antiga órbita soviética, no sentido de os conduzir de volta e pelos próprios pés à esfera de que se tinham libertado. Vamos ter que voltar a estudar a história das relações internacionais na Europa de Bismarck, porque é este o modelo que as elites na Alemanha e na Rússia tanto ambicionam, e não o escondem – uma relação bilateral das duas potências continentais europeias sem intermediação, nem de Bruxelas nem de Washington. A oeste e pela via da dependência financeira a Alemanha também tem vindo a construir a sua órbita de dominância política e económica – mas esta realidade é-nos menos estranha.

 

Hoje, começa a ficar evidente que a Rússia está apostada em abraçar energeticamente a Europa. Os russos estenderam um primeiro braço energético pelo norte até à Alemanha e fizeram com os alemães o gasoduto do Mar Báltico (o “Nord Stream” – para contornar a Ucrânia e a Polónia) sem Bruxelas ser tida ou achada, agora o mesmo está a acontecer com o “South Stream” (um outro gasoduto para contornar a Geórgia e a Turquia pelo Mar Negro) e deram a conhecer esta semana que a construção vai ter início ainda este ano. É o braço sul, que entra pela Bulgária e que vai ser estendido até à Itália e à Grécia, terminando na Áustria. O que também parece evidente é o propósito dos russos em minar o principal projecto energético com patrocínio europeu: o Nabucco.

 

Enquanto o kzar e a chanceler negoceiam e decidem o futuro da Europa, em Bruxelas legisla-se sobre o superior interesse das galinhas poedeiras. Não há o risco de, no imediato, a União Europeia se converter num clube de desocupados – não é ainda a preguiça e o ócio que a ameaça: é a irrelevância.

Victor Tavares Morais às 08:22 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Sábado, 21.04.12

Dois modelos e um abraço

 

Está aí a eleição presidencial francesa, e ao contrário do que inicialmente parecia ser um factor distintivo dos candidatos, o modelo energético francês não chegou a ser seriamente posto em causa. Com Sarkozy e Mélenchon claramente do lado pró-nuclear, François Hollande limitou-se a um acordo com os ecologistas para uma redução da dependência energética francesa da energia nuclear dos actuais 75% para os 50% em 2025 – a montanha pariu pouco mais do que um rato. Ficou claro, mesmo antes de conhecermos os resultados eleitorais, que a França vai manter o seu modelo energético. Do outro lado está a Alemanha, que fez saber no ano passado que iria desactivar as suas centrais nucleares até 2022. Parece evidente que vamos ter na Europa, pelo menos, dois modelos energéticos distintos, o francês e o alemão. No “clube francês" alinham o Reino Unido, a Holanda, a Polónia e a República Checa, do lado alemão, parecem já estar cativados: a Áustria, a Suíça e a Itália.

 

Se em França é a manutenção do status quo, e portanto a incerteza não é condição determinante, já o modelo alemão convoca aos especialistas e políticos todas as dúvidas e perplexidades – Como vai um país altamente industrializado revolucionar o seu modelo energético sem comprometer a sua competitividade económica? Qual o significado político desta mudança? O objectivo alemão é de ter 30% de renováveis até 2020 e 100% em 2050. A produção renovável vai exigir uma capacidade de “back-up” muito considerável que só as centrais a gás parecem poder oferecer, o que também significa, que o modelo energético desejado vai deixar a Alemanha ainda mais dependente do gás russo.

 

Com a mudança do modelo energético alemão, algo muito significativo poderá estar a acontecer na Europa – uma maior aproximação de Berlim a Moscovo, com todas as implicações políticas daí decorrentes. O que ontem poderia parecer ter carácter especulativo, com a saída de Gerhard Schröder directamente da chancelaria alemã para a petrolífera russa, tem hoje da observação dos factos recentes, um significado muito concreto. Por exemplo, quando a Rússia desvia, desde o início deste ano, parte significativa do gás com destino à Alemanha dos gasodutos ucranianos (privando a Ucrânia dos proveitos desse trânsito) para o recentemente construído gasoduto russo do Mar do Norte (Nord Stream), que liga a Rússia directamente à Alemanha.

 

Em breve, ao abraço do urso poderão sucumbir a leste, por asfixia económica, países como a Ucrânia, mas desenganem-se, os que pensam que não é nada connosco - o “bafo” do urso também se fará sentir a oeste.

(continua)

Victor Tavares Morais às 09:58 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Terça-feira, 27.03.12

Presidenciais, gasolina e geopolítica

Um artigo de Daniel Yergin publicado no dia 16 de Março no WSJ.

 

As in the 2008 presidential election—remember the chants of “Drill, baby, drill!”—rising oil and gasoline prices have become an issue in 2012. But election-year politics aside, the forces driving up prices at the pump are very different today than they were four years ago. In 2008, it was primarily the surge in oil consumption in emerging markets, disruptions, and a belief that the world was running short of oil (the so-called peak oil crisis).

 

In 2012, the reason is mainly geopolitics.

(…)

A market this tight would already be susceptible to upward price pressures. But the market is operating on expectations that supplies will become even tighter as new U.S. and European sanctions against Iran take effect and the risk of military conflict increases. Put simply, the oil market is reading the front page.

 

Given these circumstances, there's not much Washington can do in the short term to reduce prices at the pump.

 

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Victor Tavares Morais às 22:56 | comentar | partilhar
Quinta-feira, 09.02.12

Realpolitik der Energie

The cold snap gripping Europe has forced Germany, which decided last year to abandon nuclear power, to bring several reactors back on line, the daily Handelsblatt reports in its Thursday issue.

 

Victor Tavares Morais às 12:58 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Segunda-feira, 06.02.12

Déjà vu

 

Mais uma vez, a Rússia faz a Europa tiritar de frio e demonstra que energia é poder. São já oito os países europeus a sofrer com a redução do gás russo. Pelo meio, a Rússia aproveita para acertar contas com a Ucrânia a quem acusa de ficar com o gás destinado à Europa, em trânsito nas redes ucranianas (80% do gás russo transita pela Ucrânia). E Putin também não perde uma oportunidade para nos recordar que o eixo do poder na Europa ainda é Paris-Berlim-Moscovo. Está na hora de alguém na UE prestar contas, mas como isso provavelmente não vai acontecer, a Polónia e os demais vão encontrar fortes razões para continuarem a afirmar uma política energética à revelia do directório europeu.

Victor Tavares Morais às 14:23 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Sexta-feira, 20.01.12

O Senhor Wen

 

 

Terminou a visita do primeiro-ministro chinês  Wen Jiabao a alguns países do Médio Oriente, na qual deixou de fora o Irão, talvez para arrefecer os ânimos em Teerão e Washington e sinalizar que tem possíveis alternativas ao fornecimento de petróleo iraniano. Mas como tinha escrito aqui, a China joga forte nesta região e não pensa renunciar facilmente ao petróleo iraniano. Para melhor compreender a situação vale a pena saber o que disse o Senhor Wen durante esta semana, na sua visita às Arábias.

 

Victor Tavares Morais às 09:25 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sábado, 14.01.12

Greater Sunrise

 

Timor-Leste vai ter um ano de 2012 decisivo para a sua viabilidade económica como país. Enquanto nação em construção vai continuar muito dependente dos recursos que conseguir mobilizar para educação e infraestruturação, recursos que poderão ter duas origens: a ajuda externa; ou os proveitos dos seus recursos energéticos.

Timor-Leste e a Austrália dividem enormes reservas de gás – o campo de Greater Sunrise. Mas somente 20% do campo está em território australiano, de acordo com os limites marítimos definidos pela lei internacional, direito marítimo que em 2002 Camberra mandou às urtigas. Os timorenses foram “voluntariamente" esbulhados dos seus legítimos direitos (há quem diga que foram só coagidos), quando aceitaram dividir 50/50 os impostos e os royalties dos recursos do gás de Greater Sunrise, e a abdicar de qualquer queixa judicial nos próximos 50 anos, relativamente aos limites fronteiriços do campo. Mas felizmente, tem resistido à pretensão das empresas do consórcio de, também, processar o gás num terminal flutuante ou em território australiano, dispensando qualquer investimento em Timor – um terminal de liquefacção de gás. Um golpe de misericórdia para este jovem país: nem investimento, nem energia para o desenvolvimento.

Espero que Timor-Leste não ceda a mais esta pretensão, e faça vingar a sua vontade, caso contrário aguente firme o impasse até ao início de 2013, quando ambas as partes tiverem o direito de cancelar o acordo original (se a produção de gás ainda não estiver em curso). Podemos até imaginar que, pelos confins da Ásia, não faltem outros e fortes interessados a emparceirarem com Timor.

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Victor Tavares Morais às 21:07 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Terça-feira, 10.01.12

Os maiores

 

do jornal Expansión de hoje.

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Victor Tavares Morais às 19:19 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Terça-feira, 13.12.11

Outra reinvenção americana

A primeira década deste século foi a década americana das reinvenções tecnológicas ligadas aos combustíveis fósseis. E, ao que parece, o motor de combustão interna foi mais uma das tecnologias com morte prematuramente anunciada. 

O OPOC da Ecomotors é um exemplo da economia contemporânea - projectado por um engenheiro alemão (Peter Hofbauer), financiado por investidores privados americanos (Bill Gates e a Khosla Ventures) será, muito provavelmente, construído por industriais chineses.

 

 

Apresentado em 2010, só estará no mercado daqui a cinco anos (deve ser o tempo suficiente para sair a nova regulamentação americana para o sector automóvel).

Victor Tavares Morais às 09:20 | comentar | partilhar
Segunda-feira, 05.12.11

A Europa não chega

 

As sanções financeiras ao Irão, por parte da Europa, parecem ter surtido efeito, já o impacto do embargo às importações de petróleo iraniano pode vir a ser nulo, ou mesmo negativo.

 

A Europa hoje, no seu conjunto, representa apenas 20% das exportações iranianas (os outros grandes são a China, o Japão, e a Coreia do Sul). O que a Europa se arrisca a conseguir, com este embargo, é que o Irão desvie estes volumes para os outros compradores (e concorrentes), e se necessário, lhes venda a desconto face ao mercado. No final, o Irão arrecada a mesma receita, enquanto a Europa vai ter que ir comprar estes volumes a um preço mais alto.

 

Neste cenário, de crise económica, as sanções energéticas ao Irão devem ser acordadas num quadro de concertação mundial, caso contrário: é autoflagelação.

Victor Tavares Morais às 21:41 | comentar | partilhar
Sábado, 03.12.11

O inimigo que vem do norte

 

 

Foto retirada do jornal The Guardian - Photograph: Abed Al Hashlamoun/EPA

 

A Grécia, que a propósito da crise financeira europeia, tem sido tão noticiada na comunicação social, acaba por ser, para muitos europeus, um membro desconhecido num corpo disforme e retalhado. Quanto ao Médio-Oriente não é diferente, o que sabemos sobre o que se passa em Israel ou no Egipto é muito do mesmo, e quase nada de novo. E quanto à relação da Europa com Israel sabemos apenas que não é de afinidades.

 

Temos do Mar Mediterrâneo uma imagem de calmaria, talvez seja transmitida pelos dias de férias passados na nossa costa algarvia, às portas do mediterrâneo, onde os acontecimentos mais radicais que temos são desembarques de traficantes de droga, ou um, mais esporádico, de imigrantes ilegais. No entanto, no mediterrâneo oriental tivemos importantes acontecimentos este ano de 2011, revoltas no Egipto e na Líbia, e agora estamos a assistir à formação de uma aliança estratégica de Israel e da Grécia. Os governos das cidades berço da cultura ocidental (Jerusalém e Atenas), estão numa nova fase de comunhão, só que motivada por interesses bem mais prosaicos que os culturais: os recursos energéticos e a segurança.

 

Esta semana, com a visita oficial do ministro israelita a Atenas, tivemos a última demonstração que uma aliança estratégica entre Israel e a Grécia está em estágio avançado. O ministro dos negócios estrangeiros israelita deslocou-se a Atenas onde anunciou um acordo de cooperação estratégico na área da energia entre Israel, a Grécia e o Chipre, proferiu ainda declarações inequívocas de apoio aos direitos de exploração de recursos naturais (petróleo e gás), por parte dos cipriotas gregos, no mediterrâneo oriental. Mas disse mais, disse que Israel estaria disposto a defender esses direitos se alguém os desafiasse, e não acreditava que a Turquia o fizesse. Ora, a Turquia já o fez, pelo menos verbalmente. O governo turco reagiu, reafirmando que considera a exploração de recursos no mediterrâneo por parte do Chipre ilegal, e teve a resposta no próprio dia, não da Grécia, nem do Chipre, muito menos da UE, mas novamente de Israel - rejeitou as acusações e informou que as explorações são em zona económica exclusiva do Chipre.

 

Em Setembro, tinha sido a vez do ministro da defesa de Atenas visitar Jerusalém, para selar uns protocolos operacionais de defesa (note-se: operacionais), teve encontros com os principais governantes mas também com o Patriarca de Jerusalém: a comunhão parece ser alargada.

 

E a pergunta que se impõe é a seguinte: porque necessita Israel desta aliança?

Sabemos que desde que a frota de barcos de pavilhão turco furou o bloqueio naval à Faixa de Gaza, as relações com a Turquia tiveram um sério agravamento e nunca mais melhoraram, bem pelo contrário. A Turquia é agora o inimigo que vem do norte.

 

Se somarmos a isto, as revoltas árabes, nomeadamente no Egipto, e a grave instabilidade na Líbia, temos uma equação de muitas e novas variáveis. Deixemos aqui a Líbia de lado (onde pode emergir um ninho de piratas), mas só o Egipto, per si, tem sido fonte bastante de preocupação. O Egipto é o principal fornecedor de gás a Israel, e com Mubarak sempre cumpriu escrupulosamente os contratos, acontece que desde o início das revoltas no Cairo, só entregou a Israel ¼ do que estaria contratualmente obrigado. E naturalmente, este facto tem causado sérias dificuldades a Israel, nomeadamente aos sectores que dependem do gás, como a produção eléctrica – com o recurso alternativo ao gasóleo e ao fuel os preços da electricidade dispararam brutalmente. Mas o mais grave aconteceu na segunda-feira, um atentado terrorista no Egipto (o nono, só este ano) interrompeu de vez o fornecimento a Israel.

 

Este é um problema muito grave, mas para Israel é ainda assim temporário (tem abastecimento estratégico e de segurança de combustíveis para mais de um ano), e o país vai em breve ser autosuficiente em gás por várias décadas, com a entrada em funcionamento da sua exploração de gás de Tamar, em 2013.

 

Mas onde fica Tamar? É uma exploração offshore no mediterrâneo a 80 km da costa (sujeito a ataques terroristas ou dos seus inimigos de sempre). E os petroleiros que abastecem Israel, de onde vêm? Pelo estreito do Bósforo, controlado pela Turquia. Israel necessita rapidamente de se afirmar militarmente no mediterrâneo, e a Grécia é o seu aliado natural, confronta-se com a Turquia e tem uma marinha de guerra razoavelmente eficaz. Esta aliança vai dominar o mediterrâneo oriental.

 

E a Grécia, porque investe tanto nesta aliança?

A UE já foi união económica, união monetária, união de vontades e agora parece que vai ser união orçamental, coisas muito importantes - mas já todos percebemos que não há um alemão disposto a arriscar a carteira por um belga ou francês, quanto mais a vida por um grego ou português. Os Estados continuam a fazer pela vida, e fazem bem.

Victor Tavares Morais às 10:11 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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