Há anos que nos queixamos da falta de concorrência que existe em Portugal. Há livros escritos a explicar como a falta de concorrência no sector não transaccionável (aquele que não está muito sujeito a concorrência externa) é uma das causas da estagnação da economia portuguesa dos últimos 12 anos.
Agora que, finalmente, se avizinha uma guerra de preços num desses sectores, mais precisamente o dos supermercados e hipermercados, levanta-se um conjunto imenso de vozes em coro a protestar, tendo já a ministra da agricultura prometido legislação adequada.
Caramba, mas querem competição, ou querem sectores protegidos a viver das tão propaladas rendas? Toda esta discussão em torno do Pingo Doce só me merece mais um comentário: tanta estupidez junta devia pagar imposto.
Promoções destas existem em todos os países desenvolvidos. Exemplos não faltam, desde o famoso boxing day em Inglaterra, Canadá e Nova Zelândia à Black Friday nos Estados Unidos. Em Portugal existem alguns sectores onde a concorrência é agressiva, o que só tem favorecido o consumidor: no mercado dos produtos para a casa, por exemplo, onde os preços baixaram consideravelmente com a entrada do IKEA; no sector da venda de produtos electrónicos, onde os preços também terão baixado com as promoções agressivas da Media Markt. As pessoas hoje podem não lembrar-se, mas recordo-me de ver muita confusão em lojas da empresa alemã em promoções do género. Pelo menos são dois exemplos que as pessoas conhecem. Encontramos nestes espaços produtos muito baratos, o que terá forçado outros concorrentes a fazer o mesmo. Isto para não falar no que significou para o país a instalação de uma base da Ryanair no Porto (e em breve será em Lisboa), que além de permitir a muitos portugueses viajar a baixo custo, trouxe centenas de milhares de novos turistas ao Porto e ao Norte do país. Desde quando é que em Portugal se considera estranho ser a favor de empresas que pratiquem preços baixos, promoções agressivas ou descontos exagerados? Não querendo fazer processos de intenções, viu-se pouca gente de fracas posses reclamar contra esta promoção. Aliás, nas minhas conversas desta semana, apenas aqueles para quem o dinheiro não é problema questionaram o desconto. Quem tem que contar os euros até ao final do mês, seja de esquerda ou direita, sabe bem dar o valor a estas promoções. E muitos apenas lamentaram não conseguir usufruir com o desconto.
Noutros sectores a concorrência é nula ou muito ténue, e quem perde, no final, é o consumidor. Como o LA-C defende, esta previsível guerra concorrencial, que se adivinha entre a Jerónimo Martins e as restantes empresas, é saudável e devia ser recebida de braços abertos pela população. Afinal o que é que as pessoas querem? Monopólios que dominem o mercado, ou várias empresas a lutar pela conquista do consumidor? Se gostam de monopólios, podem aplaudir a posição dominante da GALP no sector dos combustíveis ou da EDP na electricidade. Será que é esse o modelo que desejam para o país?